“Vamos ficar em casa o máximo que a gente puder”. Médico Fábio Franzoni.

No início de abril, o médico Fábio Franzoni, de Pato Branco, já alertava para os impactos da pandemia. Em áudio trocado com um amigo, disse que chegaria a hora em que pessoas com seus carros importados exigiram atendimento imediato, mas não teriam. “Tamo tudo f*****!”, disparou. O áudio viralizou e não demorou para surgirem memes da história, perdendo a essência do que o experiente médico quis dizer sobre a pandemia.
Ele não estava brincando. Franzoni, que há 20 anos trabalha no Sistema Único de Saúde, acompanhava o comportamento do novo coronavírus em outros países e via uma tragédia anunciada se aproximando. Seu áudio alertava que a doença não escolheria pessoas e, caso não fossem seguidos os protocolos mínimos de cuidado individuais, os resultados seriam catastróficos.
Naquela época, o uso de máscara começava a ser implementado a rigor e o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciava a saída do cargo. Mesmo sendo um médico bolsonarista, Franzoni dizia que era hora de ouvir o ministro, e não o presidente. “Eu estou seguindo o protocolo do Ministério da Saúde, e não do presidente”, dizia repetidamente, quase como um mantra.
O que Franzoni fazia era manter um tratamento à risca. Pecava pelo excesso. Não esperava os pacientes ficarem em estado grave para pedir uma internação ou receitar medicamento adequado. Tinha na sua lista paracetamol, azitromicina, dexametasona, vitamina D. “Tô mandando bala pra todo mundo”, dizia.
O médico também disponibilizava seu número de WhastApp para acompanhar os pacientes. Queria que todos os dias eles enviassem uma mensagem. Ele poderia responder com apenas um “ok”, caso o quadro estivesse estável. Mas também não hesitava em um “vá para o hospital” caso a situação se agravasse. No fim das contas, o médico não desligava e via amigos que trabalhavam em hospitais particulares fazendo o mesmo. Não tinha a ver com o retorno financeiro, mas com o comprometimento com os votos de sua formação. Era por vidas.
Primeiros sintomas
Já na metade de julho, Franzoni, na linha de frente, descansava após o plantão da sexta-feira, 17. Na segunda-feira, dia 20, voltava ao Hospital São Lucas, mas aquele dia estava estranho. Fortes dores musculares e um mal-estar atípico tomavam conta de si. Desconfiou ser dengue — doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti que tem como alguns dos sintomas dores intensas e febre alta. E até que não soubesse o que era achou por bem cancelar a agenda do consultório, dos plantões e da cirurgia. Fez dois exames e os sintomas aumentaram. Agora também tinha quadro gripal. Quando o resultado veio, não o surpreendeu: positivo para Covid-19.
Franzoni tem 40 anos, faz natação e não possui comorbidades. Mas o histórico de atleta não lhe serviu. Ao pegar o exame positivo, embora não surpreso, chorou. O que sentia era um misto
de medo com bravura. “Bora enfrentar esse treco!”, disse de pronto. É que o medo não era apenas por ele, que bem conhecia os níveis mais graves que a doença poderia alcançar, mas por sua mãe, de 74 anos, com quem ele mora em um apartamento a poucas quadras do Hospital São Lucas.
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Isolamento e internação
Ninguém está pronto para começar um isolamento da noite para o dia. Mas, como uma estratégia de guerra, que é reinventada em instantes conforme o ataque do inimigo, precisou ser rápido. Os talheres foram separados. Faca, colher e garfo para Franzoni e faca, colher e garfo para sua mãe. Produtos desinfetantes à mão para higienizar o banheiro após cada uso. Quarto fechado.
Até o quarto dia, os sintomas estavam leves. Franzoni foi até seduzido pela ideia de que com ele as coisas seriam amenas. Mas dois dias depois a fraqueza aumentou. Faltavam-lhe forças para beber água. Mal dormia. E foi numa madrugada já nos primeiros dias de agosto que seu corpo não aguentou. Depois de voltar do banheiro, acreditou ter caído em sono profundo. Só percebeu que não era sono quando despertou no chão. Havia desmaiado. Franzoni só esperou o amanhecer para ir ao hospital no dia 26 de julho. De repente, onde ele atendia, tornava-se paciente.
Sua mãe lhe mandava vídeos, mantinha contato. No desespero, ela chegou a dizer: “A sua mãe tá supernervosa. Não fica aí”. É que o medo persegue não apenas quem possui a doença. Mas quem vê alguém com a doença. Em casos cruéis, o vírus maltrata, não devolvendo a pessoa internada. A despedida é na entrada do hospital. E isso machuca. Franzoni se estabilizou e retornou para casa. Sem abraços. Porém, três dias depois, precisou voltar ao hospital.
Apesar da falta de ar, o médico não precisou de oxigênio, nem de um leito na UTI. Quando conversou com a reportagem, na sexta-feira, dia 7 de agosto, já estava em casa. Seu isolamento havia acabado no dia 3. “Eu nunca me achei um super-herói. Por eu ser médico, não tenho nenhuma vantagem ou desvantagem. Não sou uma vítima. Sou apenas mais um. Mas, se eu pudesse dar um conselho, seria aquele antigo: façam as coisas distanciados. Não inventa de fazer festa, não é hora de festa. Vamos ficar em casa o máximo que a gente puder. Vamos pensar em salvar a gente e os nossos familiares.
Porque a situação é muito caótica. É muito doída. Estamos há quatro meses nesses mil (mil mortes por dia). Não dá mais pra continuar assim. Precisamos abaixar esses números urgentemente! É um inimigo diferente que mudou radicalmente a nossa forma de viver. Nunca passamos por isso”.





