O que se passa na comunidade não é responsabilidade só dos políticos

Unioeste inicia projeto de extensão “Nós podemos”, com professor Sérgio Claudino, de Portugal.

 

Alunos e professores da Escola Estadual Irmão Dumond, em Itapejara D’Oeste, uma das parceiras do projeto, com a professora
Mafalda Nesi Francischett (blusa verde). Sentado, professor Sérgio Claudino, de Portugal, autor do “Nós propomos”.
Foto: Arquivo pessoal

“Não é apenas dinamizar as relações com a comunidade, mas tentar perceber como que na geografia e na educação geográfica se consegue mobilizar os alunos para o trabalho sobre os problemas locais e, portanto, na Unioeste, a professora Mafalda (Francischett) está a conduzir o projeto e as professoras que estão fazendo as suas teses de pesquisa sobre o projeto “Nós propomos cidadania e inovação na educação geográfica”. Conseguimos, a partir da escola, entusiasmar os alunos e conseguir que eles façam um trabalho útil para a comunidade”, diz o professor Sérgio Claudino, do IGOT-Universidade de Lisboa, autor do projeto, que já se expandiu para outros países, como Espanha, Moçambique e Brasil. Em Portugal, surge no âmbito da disciplina de Geografia, mas na Espanha é um projeto multidisciplinar.

O “Nós propomos” é um projeto de extensão firmado com a Unioeste, que é a primeira universidade do Paraná a aderir a este trabalho, através dos mestrados em Geografia e em Educação. “Ao educar os mais jovens no sentido de que aquilo que se passa na sua comunidade não é responsabilidade apenas dos políticos, mas sim de cada um de nós cidadãos. A partir da experiência em Portugal, que já está no sétimo ano de funcionamento, temos um histórico de que os alunos mudam a leitura com que encaram a sua cidade e comunidade e agora já tem um olhar crítico. Temos a ideia da construção de uma perspectiva crítica da educação geográfica; acho que esse é o grande patrimônio”, completa. 
Pela Unioeste, foram firmadas parcerias com o Colégio Estadual Professor Agustinho Pereira, de Pato Branco, e Escola Estadual Irmão Dumond, em Itapejara D ‘Oeste. Segundo professor Sérgio, o “Nós propomos” dá visibilidade à disciplina de Geografia, à universidade, aos municípios, às escolas e aos problemas locais. Os professores Sérgio e Mafalda estiveram nas escolas nesta semana, para firmar as parcerias. 

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Sérgio Claudino, professor da Universidade de Lisboa, em Portugal, e autor do projeto “Nós propomos”. 
Foto: Leandra Francischett/JdeB

 

Identificação do problema, trabalho de campo e apresentação de propostas
O projeto conta com três fases. A primeira é a identificação de problemas locais, desafiando os alunos a identificarem problemas que lhe sejam significativos. “Assumimos uma perspectiva construtivista da aprendizagem, quer dizer, nós abraçamos a perspectiva de que o aluno tem necessidade de trabalhar problemas que para ele sejam relevantes.  Sugerimos que escolham problemas práticos e reais”, afirma professor Sérgio. 
A segunda fase é do trabalho de campo sobre o problema identificado. “Vamos

supor que os alunos identificam como problema um prédio abandonado no centro da cidade, e eles acham que deveria ser recuperado, utilizado com outra função, então eles têm que ir ao local tirar fotografias do prédio e fazer inquéritos no sentido de ver se a população concorda em que o prédio seja recuperado; mas também eles devem, por exemplo, dirigir a prefeitura perguntando o que eles pensam sobre o prédio, com autoridades locais, ou seja, nós queremos que eles se habituem a ouvirem a população sobre os problemas locais.
Na terceira fase, eles apontam propostas de solução. São essas três fases: identificação do problema, trabalho de campo e apresentação de propostas. Há ainda uma quarta etapa, que não é obrigatória, que é a divulgação das propostas. “Esse projeto é desenvolvido nas escolas, mas nós queremos que não seja só mais um trabalho escolar, que morre na escola, nós queremos que salte para a comunidade. Devo dizer que, como criador do projeto, eu fico surpreendido com a pertinência das propostas dos alunos. Nesse sentido, eu penso até que uma comunidade indulgente é aquela que sabe aproveitar as propostas dos seus mais jovens, que trabalham normalmente no projeto com grandes avanços”, declara professor Sérgio. 

Projeto além das fronteiras
São mais de 40 escolas em Portugal, mas o projeto saltou fronteiras. No Brasil, já é um projeto de grande dimensão, desde Pelotas (RS) a Altamira (PA). “Portanto, é nesse sentido um grande projeto. Na realidade, eu diria que é o único projeto no âmbito da geografia tão grande. Esse ano inicia também em Moçambique.”
O “Nós propomos” tem se difundido fundamentalmente através da geografia, mas em Portugal há professores de outras áreas que colaboram. Na Espanha, o projeto é praticado pelo professor de várias áreas disciplinares, porque o projeto trata de problemas locais e territoriais, portanto, tem uma grande abrangência.
De acordo com professor Sérgio, há três ideias que caracterizam o projeto, que começa precisamente no Instituto de Geografia, da Universidade de Lisboa. A primeira ideia é a parceria entre as instituições, com as escolas do ensino fundamental e médio, as lideranças locais e as empresas. A segunda ideia é de simplicidade do projeto, o que permitiu que o projeto tenha se expandido tanto. “A essa altura, por exemplo, vamos avançar com a divulgação do projeto no mundo anglo-saxônico. Recebi um convite pra publicar sobre o projeto em escala mundial.” 
A terceira ideia é o princípio da flexibilidade, ou seja, em cada país, em cada universidade, em cada escola, há dinâmicas próprias, respeitando o nome “Nós propomos”. Os alunos escolhem e identificam os problemas locais. “Acho que essa flexibilidade, essa simplicidade e algum idealismo justifica o sucesso do projeto. Naturalmente, eu nunca imaginei que isso ia acontecer quando eu lancei o “Nós propomos”, em 2011 e 2012.”

Contribuição da Unioeste 
No Brasil, as fundadoras do projeto foram a Universidade Federal de Santa Catarina e a Federal do Tocantins. “Na Unioeste, tenho encontrado pessoas extraordinárias, até porque participam do projeto “Nós propomos” pessoas que tenham da escola uma ideia de transformação da sociedade, querem transformar a escola e através dela contribuir para a transformação da própria sociedade. Quero registrar, em relação à Unioeste, duas coisas: primeiro o entusiasmo da professora Mafalda e das pessoas que com ela trabalham, ela já conseguiu organizar uma pequena equipe, e isso é muito importante, depois eu queria dizer que é um trabalho que está sendo orientado numa perspectiva em relação à comunidade de extensão, mas numa perspectiva de investigação à ação sobre como conduzir e orientar a própria educação geográfica”, comemora Sérgio Claudino. 

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