Biólogo cataloga 23 espécies em Francisco Beltrão
A pesquisa durou um ano e meio e foi realizada em Seção São Miguel, há 12 quilômetros da cidade. For
Publicado em: 01/07/2012 - 09:00 | Atualizado em: 24/02/2013 - 16:53
Conhecer a fauna e a flora do Sudoeste. É esse um dos trabalhos dos biólogos da região, que percorrem as propriedades rurais em busca de espécies. Rafael Rodolfo Toepke, com a orientação da professora Luciana Pellizzaro e do professor Fernando Rodrigo Treco, do curso de Ciências Biológicas da Unipar (Universidade Paranaense), unidade de Francisco Beltrão, definiu o tema de seu Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC, a partir de uma preferência pessoal: “Sempre gostei dessa parte de biodiversidade, e optei pela pesquisa de mamíferos”.
Além disso, segundo o biólogo Rafael, não há registros científicos sobre a fauna da região, e reunir estes dados foi um desafio gratificante. “Com esta pesquisa, consegui mostrar o grau de importância dos remanescentes florestais para a sobrevivência das espécies e o que essa fragmentação ocasiona na comunidade da fauna”, comenta.
A pesquisa de campo de Rafael durou um ano e meio e foi feita na propriedade da família Macari, em Seção São Miguel — a 12 quilômetros da área central de Francisco Beltrão. O local, de 125 hectares (51,6 alqueires), é um misto de mata primária, lavoura e monocultura de pinus. A pesquisa de Rafael aconteceu nos três ambientes. “Utilizei as metodologias de visualização, parcela de areia, coleta de pegadas e entrevistas com os moradores da comunidade.”
O biólogo conta que, quando encontrava pegadas, tirava o molde de gesso. Por meio desse molde, que deixa a pegada em alto relevo, é possível verificar as medidas e identificar o animal. “Fazemos um quadrante de areia peneirada, fina e úmida, tendo no centro alguns alimentos para atrair os animais, e assim que eles pisam nessa areia, deixam sua pegada”, explica.
![]() |
|
Rafael monta a parcela de areia e coleta as pegadas deixadas pelos animais.Um dos moldes de gesso demonstra claramente a presença da onça-parda no Sudoeste. |
Longa caminhada
A longa caminhada acontecia de 15 em 15 dias, pelas matas fechadas, margens de rios e estradas. Nesses quilômetros percorridos por Rafael, foi possível visualizar lebre, gato-murisco e preá. “O mais interessante foi que consegui encontrar espécies chaves. Constatei a presença do Puma concolor, que é a onça-parda, a paca e o veado, do gênero Mazama — espécies que estão sumindo das matas pela perda de habitat e pela caça, apesar de proibida. Como só visualizamos as pegadas, acredito que sejam essas três espécies as principais. As demais são comuns, como o gambá, o cachorro-do-mato, a capivara, entre outros.”
Parece banal visualizar uma lebre, mas a espécie é exótica, originária do continente europeu. Segundo Rafael, a lebre foi trazida ao Brasil para caça e acabou encontrando ambiente propício, reproduziu-se com facilidade e se espalhou pelo território nacional, competindo e causando impacto com as espécies locais.
Animais de difícil visualização
Como a maioria dessas espécies possui hábitos crepusculares e noturnos (suas atividades são ao amanhecer, entardecer e à noite), fica difícil a visualização. De acordo com a orientadora, uma das grandes dificuldades, que justifica a raridade das pesquisas científicas na região, é justamente esta: a aproximação. “Geralmente, o pesquisador não consegue contato com o animal, por isso é tão importante trabalhar com aparelhos bem sofisticados.”
Durante a pesquisa na propriedade do senhor Moacir Macari, Rafael fez saídas noturnas, mas qualquer mudança no vento faz com que os animais pressintam a presença humana (devido ao seu olfato e audição bem desenvolvidos) e fujam para local mais seguro. “Ele sente o cheiro de alguém chegando perto e se esconde. Fica complicado porque os animais são arredios”, ressalta.
Sem visualizar, resta aos biólogos confiar nas demais metodologias empregadas. Quando saía a campo, Rafael tinha em mãos caderneta, gesso, máquina fotográfica e uma trena, para conferir as medidas das pegadas e passadas dos animais. “Também levava frutas para cevar os animais e água para consumo próprio.”
23 espécies catalogadas
Hoje, as espécies de mamíferos encontradas nessa região de Beltrão precisam sobreviver em pequenos espaços de mata que restaram. Segundo Rafael, são espécies que precisaram aprender a conviver com a presença humana, além disso, os animais não contam mais com a mesma quantidade de alimentos que tinham no passado. Por esse motivo, é comum que onças-pardas (suçuaranas), cachorros-do-mato e gatos-do-mato ataquem rebanhos e galinheiros. Da mesma forma que outros mamíferos, como a capivara e ratões-do-banhado, se alimentam das plantações. “A primeira reação das pessoas é matar, eles se assustam.”
Infelizmente, muita onça-parda já foi morta no Sudoeste. “Seria interessante que, quando a pessoa visualizasse ou constatasse qualquer outro vestígio desse animal considerado mais “perigoso”, entrasse em contato com a Unipar ou com os demais órgãos ambientais, para que pudéssemos continuar fazendo os registros. Vale lembrar que, na maioria das vezes, esses animais mais raros apenas passam pela propriedade em busca de espaços maiores onde possam sobreviver e não causam nenhum dano”, diz o biólogo.
Resultado positivo
O resultado da pesquisa foi considerado bom pelo biólogo. E o motivo é simples: num pequeno espaço que esses bichos têm para viver, eles ainda estão se mantendo. O sonho de todos os biólogos é que cada vez haja mais habitats naturais e mais espécies possam ser conservadas. “Não podemos culpar o agricultor, porque ele precisa da lavoura e do reflorestamento, mas acredito que é necessário preservar pelo menos aquela pequena mata que é o habitat dessas espécies de mamíferos.”



