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Renata F. Pagnoncelli
 
Estou na China.

29 de agosto de 2009

Os chineses nunca querem perder um negócio

Agora, estando no Brasil, Alexandro e eu podemos sentir de perto como os brasileiros estão percebendo a China. No quesito dos negócios ainda há muita insegurança. Estivemos em muitas cidades do Paraná e Santa Catarina e sentimos um grande interesse pela variedade de opções de produtos oferecidos pelas indústrias chinesas.
Como já contei nos textos anteriores, a China é o país mais populoso do mundo. Há milhares de pessoas desempregadas e muitas indústrias que não conseguem suprir essa demanda. Por isso a mão de obra é tão barata. Os chineses devem, muitas vezes, submeter-se a condições miseráveis de trabalho. E se quiserem desistir, vai ter uma fila de outros chineses desempregados para ocupar seu espaço. Essas indústrias oferecem ao mercado internacional 13% de toda a produção mundial. E eles querem mais!
A maior preocupação dos brasileiros gira em torno de histórias como o fulano que comprou uma tonelada de porcelana e recebeu um container de tijolo. Outro que pediu mil peças de automóvel modelo 2009 e recebeu modelo 2006. Os produtos são totalmente pagos na hora do embarque e depois disso a devolução fica totalmente inviável. Há algum tempo estava no noticiário o container que chegou ao Brasil carregado de lixo chinês. É claro que muitos negócios dão certo, caso contrário a China não estaria exportando tanto. O pulo do gato está em entender como funciona o pensamento chinês. Quando isso acontece, fica fácil não errar. E é por isso que estamos morando na China e convivendo de perto com essa cultura tão diferente da nossa.
Os chineses nunca querem perder um negócio. E isso é o que pode tornar tudo mais confuso e difícil. A barreira da comunicação também é outro quesito que pode atrapalhar. Os chineses estão aprendendo inglês e os brasileiros também. Mas nesse caso, ninguém estaria negociando com seu idioma mãe (mother language). O inglês falado pelos chineses foi batizado de “chinglish”, quase um outro idioma. Facilmente um pedido, se não compreendido pelos chineses, se transforma em outra coisa. E para que eles não percam a face*, não perguntam novamente e enviam aquilo que entenderam (e acontece a tal compra do gato por lebre). Quando se conversa com um chinês, é preciso repetir três, quatro, cinco vezes o que você quer. Mesmo se o seu interlocutor fizer cara de que entendeu. Porque os chineses não gostam de mostrar que não entenderam. Então, para garantir, é preciso falar, repetir e repetir. Depois é preciso colocar tudo em um e-mail e enviar novamente suas especificações e sempre ficar por perto, de olho, em cada movimento. Agindo assim, é quase certo que não haverá mal entendidos e os negócios serão bons para todos os lados.
*Perder a face – um traço cultural chinês que os impede de dizer um “não” redondo na cara das pessoas, eles devem se fazer entender pelas palavras soltas e pelas ações. Esse aspecto também faz com que os chineses não fiquem perguntando, questionado ou que mostrem dúvidas em relação a conversas ou decisões.


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