Pais maus: os melhores

Atualizado em: 17/02/2012 - 09:02

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Na primeira reunião do colégio do meu filho, entre um aviso e outro, a professora disse: “Eles precisam aprender a ser responsáveis, ou vocês vão querer ficar fazendo tarefa e arrumando a mochila deles até a 8ª série?”. Essa garotada nem tem 10 anos, mas já é hora, sim, de eles se assumirem e aos poucos entenderem que a vida não é videogame. É uma constatação que até certo ponto entristece: saber que nem a infância escapa. Ser responsável é um dever, e deve começar desde cedo. E o mais intrigante é que somos nós, pais, que devemos deixá-los crescer. A professora foi bem feliz também em apresentar aos pais um texto que falava sobre ser pai e mãe de verdade. Dizer não, brigar na hora certa, dar castigo, são atitudes de pais maus. Aqueles que não liberam hambúrguer e batata frita no lugar do almoço, que não compram presentes todos os dias, que não deixam que fiquem acordados até altas horas da madrugada, que vigiam o que eles fazem na internet, são, sim, pais bem maus. Pergunte pra criançada que tipo de pais eles preferem? Eles certamente vão gostar mais daqueles que não estão nem aí pro que eles pensam e não se importam nem um pouco com o que fazem ou deixam de fazer. É mais fácil ser criança assim: viver a infância tendo tudo que se quer.

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Gostei da colocação da professora e acho que está na hora de não termos medo de ser pais. Isso acontece com todo mundo, inclusive comigo. Quem já não disse um sim só pra não ver o filho chorando? É normal cairmos nesse erro: dar tudo que o filho quer para evitar contratempos desnecessários. Mas é aí que mora o perigo. Não há nada de desnecessário. Brigar com filho é coisa natural e os pais devem se impor, sim. Até quando estamos errados, ainda assim, devemos manter a rédia firme.

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Seguindo essa linha, adorei o artigo da escritora Rosely Sayão, publicado na Folha de S. Paulo de terça-feira, dia 14. Com o título “Querer é uma coisa, precisar é outra”, ela esclarece uma diferença básica entre essas duas palavras: os pais estão esquecendo que precisar é necessidade, querer é desejo. Nós temos o poder de definir e saber se nossos filhos podem ganhar um brinquedo que tanto desejam ou se podem esperar. Mas caímos na lábia deles facilmente. Basta um chorinho, uma emburrada, para aceitarmos tudo que eles querem. Como bem escreveu Rosely, “diante dos desejos das crianças temos nos comportado, muitas vezes, como se elas estivessem manifestando necessidades reais”.

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Tive que encarar e, mesmo sem querer, expliquei ao meu filho a diferença sutil entre querer e precisar. Ele sempre teve festas de aniversário, não porque precisava, mas porque é legal — e que criança não gosta de festinha na infância? É importante festejar, mas disse a ele que agora chega: não vai haver festa de 10 anos. Vai ter bolo, presente, muito beijo e amiguinho, mas sem aquela pressão de anos anteriores. Não precisa convidar a turma toda, nem exagerar nos docinhos e salgadinhos; será um evento simples, só pra não passar em branco. Afinal, a escritora está certíssima: meu filho não precisa de festa de aniversário, ele apenas quer; e o querer é perfeitamente negociável.

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Já quis por vários anos, e sempre atendemos seus pedidos. Agora ele cresceu, está quase um pré-adolescente e não terá festinha. O mais fascinante disso: ele entendeu. Não doeu nada deixar para trás esse capricho, esse querer. Na maioria das vezes eles compreendem, nós é que subestimamos a inteligência dessa criançada. Os tempos mudaram e, cá entre nós, criar filho hoje em dia é muito mais complicado do que na década de 50, por exemplo. Hoje eles têm resposta pra tudo, na ponta da língua, nos colocam contra a parede, querem saber o porquê disso e daquilo. Na época da minha mãe, aí de um filho que resolvesse questionar os pais.

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No meu ponto de vista, essa mudança é positiva, afinal, hoje existe a possibilidade de pais e filhos serem mais amigos, verdadeiros um com o outro. Mas passe o tempo que for, pais maus serão sempre os melhores. São aqueles que nos dizem não quando é preciso e nos tratam com amor sempre que queremos. No fundo, adultos e crianças sabem que nem sempre querer é poder. Precisar é mais urgente!

*Em tempo: o texto “Pais maus” é do dr. Carlos Hecktheuer, médico psiquiatra em Passo Fundo (RS). Vale a pena ler.

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Comentários




  • 23/02/2012 - 18:00 - Vilmar Mazzetto

    amei a coluna, só quem é pai e mãe sabe que tudo o que voce falou é verdade, nossa, muito bem elaborada.

  • 17/02/2012 - 11:09 - Rogério Martos Pires

    Eles não serão mal educados se educados pelo mau? Compreendo a ironia no texto, mas fica a reflexão.