Quem tem medo de cadeia
Atualizado em: 05/06/2012 - 11:05
Está bastante feia a situação da superlotação carcerária no país, mormente na cidade de São Paulo. Segundo dados estatísticos, somente neste ano cresceu em 9.216 presos; em 2011, o ano inteiro ficou em 9.504 encarcerados. Para suprir esta defasagem, o governo teria que construir uma nova penitenciária a cada 11 dias. A julgar por essa resenha, percebe-se claramente que o sistema encontra-se falido, sem quaisquer perspectivas de mudanças. A situação estaria bem pior, para o especialista em violência Ignacio Cano, da Uerj, se a policia desse cumprimento a muitos mandados já expedidos. Dizem que as cadeias em geral servem como derradeiros dutos para a ressocialização das pessoas. Os fatos demonstram que esta asseveração é tendenciosa. No particular bem que o faz, pois sempre há indivíduos que retornaram ao convívio social após alguns anos cumprindo pena. Mas no geral as probabilidades são outras. E a prova disso é o entulhamento a cada ano que passa das cadeias e das penitenciárias em todo o território nacional. Existem unidades já construídas e outras em andamento, mas ocorrem diversos entraves de grupos de pessoas e autoridades que não querem seu desenvolvimento. Na verdade, a solução não está na construção de mais prisões, pois este é um trabalho fácil demais. O difícil mesmo é humanizar o conceito de prisão, onde a dignidade dos cidadãos não seja tão humilhada, como se apenados tivessem de viver tais quais animais enjaulados, como de fato em muitas situações o fazem. Trabalhar neste ponto nevrálgico representaria o verdadeiro intuito da ressocialização das pessoas, até o momento factível nos projetos teóricos, mas falível na prática. A rigor, esse tipo de atitude as autoridades jamais terão, pois impera nos meios sociais uma espécie de "política que elegeu o encarceramento como solução", no dizer da defensora pública-geral do Estado, Daniela Cembranelli. Para ela, esta problemática já vem ocorrendo há duas décadas, e neste ínterim cresceu três vezes o total de presos no país. Por outro lado, é voz corrente na população de que as atuais prisões mais se parecem como escolas para uma segunda chance ao banditismo, como se sair delas fosse uma espécie de aval para praticar crimes com mais ousadia, apesar do encarceramento, ou exatamente por causa deste. Uma destas razões é a prática de condutas delituosas no interior dessas unidades, inclusive algumas consideradas de segurança máxima. Afinal de contas, criminosos de todos os matizes vão para a cadeia como uma espécie de punição, para se regenerar ou para ficarem piores do que quando entraram? Talvez isso explique a ausência de temor pelas unidades prisionais, uma vez que para eles essas entidades apenas lhes restringem a liberdade de locomoção, pois continuam praticando delitos de toda ordem. A vida na prática dá-lhes esse entendimento porque os crimes de qualquer natureza não param de ser cometidos. Para os indivíduos pobres que já foram presos ou para os neófitos, a teoria já lhes ensinou como funciona o sistema. Então, quem tem medo de ir para a cadeia? Pela forma como são conduzidas as normas, eles sabem que cedo ou tarde voltarão ao seio da sociedade. Esse comportamento mental também é compartilhado com os criminosos ricos, mormente aqueles do chamado colarinho branco. E a situação deles é bem melhor, pois dificilmente cumprem penas, quando muito são destituídos de seus cargos e muitos nem chegam a perder seus bens em processos indenizatórios que não acontecem.
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Moral da história: assim caminha a humanidade, vangloriando-se de seu progresso material, com suas indústrias, seus comércios, suas avançadas tecnologias; mas na rasteira, tenta driblar o fétido bojo das carcomidas relações humanas de uma sociedade ingrata e em franco declínio ético-moral.

