A tradição gauchesca

Atualizado em: 18/02/2012 - 08:41

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Sueli e Baleeiro, estudiosos da tradição gauchesca, 1975.

Casado com a gaúcha Sueli, passei a me interessar pela tradição gauchesca. Em maio de l996, em Buenos Aires, pesquisei sobre motivos gauchescos e argentinos no “Museu de Motivos Argentinos José Hernandez”, na Avenida Del Libertador, 2373, belo casarão estilo afrancesado, doado pelo milionário Félix Bunge nos idos de 1938. Realizava minha primeira visita de estudo a Buenos Aires. Passei  uma semana  hospedado nos Padres Carlistas (Casa Stela Maris - Casa de los Marinos), na calle Independência, 20, perto do cais do porto. Hoje, Buenos Aires é caminho da roça.

O Museu José Hernandez guarda milhares de documentos, livros, objetos, peças de artesanato, além de quadros, gravuras e prataria ligada à vida campeira. Quando de sua criação, em 1938, recebeu o nome de “Museu de Motivos Argentinos Félix Bunge”, que abrigava, também, o Museu Biblioteca del Folklore Argentino, a Asociación Folklórica Argentina e a Asociación Amigos del Arte Popular. Em 1939, recebeu, também, o acervo do Museu de Motivos Populares Argentinos José Hernandez e, finalmente, “Museu de Motivos Argentinos José Hernandez”.

Demorei-me mais tempo pesquisando na biblioteca, cujo acervo de mais de 5 mil obras engloba preciosidades, como me mostrou a pesquisadora Marina Antelo, então diretora da biblioteca. A licenciada Marina de imediato me colocou diante de raridades como “Aniceto, El Gallo” - 1872; “La Vuelta de Martín Fierro”, José Hernandez - 1879; “El libro Alegre ó Rosas y sus locuras”, Frederico Barbara - 1911; “Instrucción del Estanciero - Tratado Completo. La Plantación y manejo de un establecimiento de Campo" - 1882. Há edições do “Martín Fierro”, de José Hernandez, em mais de 30 línguas, inclusive o grego, hebraico, russo, sérvio, chinês e guarani.

Numa sala ao lado da biblioteca, a réplica de uma pulpería (bolicho) lembra o visitante como eram as vendas da Pampa Argentina no século passado e início deste. A pulpería “Don Segundo Sombra” é uma homenagem a Ricardo Guiraldes (1886/1927), autor do clássico da vida dos “Ilanos argentinos” Don Segundo Sombra, em que retratou a planura pampeana e suas estâncias. Guiraldes se criou na Estância San Antonio de Areco.

No auditório “Gaúcho Cruz”, homenagem ao tipo descrito por José Hernandez no Martín Fierro, são exibidos documentários sobre aspectos da cultura típica e popular da Argentina. Há rica coleção de esporas, boleadeiras, estribos, arreios, botas de garrão de potro, prataria (cuias de chimarrão, que os argentinos chamam de “mate”, bombas, facas, adagas, jarros, erveiras). Tudo que se refere à “platería criolla”. Da mesma forma, há peças de couro, de madeira, além de “artesanía en tejido” que ainda existe no interior do país: ponchos, chiripás, tiradores. Não faltam instrumentos musicais como o “charango”, pequeno violão, os “pifikas”, “trutukas”, “cultrumes” e “turuni”.

O museu já publicou vários cadernos e catálogos, alguns de grande beleza gráfica, como os apresentados nas exposições de: “Argenteria en el Río de La Plata” - no Instituto Ítalo-Latino-Americano - Itália; “Silverworks from Rio de La  Plata – Argentina”, no Smithsonian Institution, USA; “Platería Criolla de la Argentina” (Siglo XX) - no Instituto de Cooperación Iberoamericana de Madrid, Espanha. Qualquer brasileiro, de maneira especial os gaúchos, deve visitar o Museu de Motivos Argentinos José Hernandez para que possa, de maneira  mais profunda, entender a formação da Argentina e fazer algumas analogias com a tradição gauchesca do Rio Grande do Sul. Não deixem de assistir aos audiovisuais: “Conozca su museo”, “El mate”, “La pulpería” e “los platero porteños”, dentre outros. Visitar esse museu/biblioteca é uma homenagem à cultura “criolla” latino-americana e motivo de enriquecimento cultural. ¡Buenas y gracias!

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