Padre Basílio Cembalista - Um jornalista brasileiro com os pés no Canadá e o coração na Ucrânia

Atualizado em: 28/07/2012 - 08:56

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Padre Basílio Cembalista (primeiro à esquerda), OSBM,  ao lado de três gerações dos Michalchechen, comunidade Esperança, interior de Prudentópolis, Paraná - Anos 90. Foto de Jorge Baleeiro de Lacerda.

 

Há muito tempo, em meados dos anos 90, creio, passei alguns dias em Prudentópolis (Paraná) para estudar a expressiva presença ucraniana naquele município. Mereci a colaboração dos padres basilianos. Pude andar durante uns cinco dias pelo interior com o padre Basílio Cembalista, de férias no Brasil, hoje de vasta experiência como jornalista, como ele mesmo conta, a meu pedido, nesta página. Seu domínio da língua ucraniana é total. Aprendeu a falar e a escrever o ucraniano com os pais, no interior de Santa Catarina. Edita, em Toronto, Canadá, há 24 anos, a “Svitlo’’, a mais importante revista católica ucraniana fora da Ucrânia. Cada quatro, cinco anos me envia um pacote de livros e jornais em inglês sobre a Ucrânia. Deve-me uma biografia do poeta ucraniano Taras Shevchenko, herói nacional.

Leiamos o que ele me contou sobre sua vida de padre-jornalista em Toronto, Canadá:

“Cheguei a Toronto, via Nova Iorque, no dia 15 de março de 1989, imediatamente comecei a trabalhar de assistente do editor da revista “Svitlo”. Não tive dificuldade  em  redigir em ucraniano, pois até os oito anos  falava somente o ucraniano e  quando estudante escrevia artigos em ucraniano para o jornal “Pracia”, de Prudentópolis, e para alguns jornais dos  EUA, entre os quais o jornal ucraniano “Zoria” de Chicago. No dia 1º de janeiro de 1990, fui designado redator-chefe da Revista “Svitlo” na qual continuo até o dia de hoje, isto durante vinte e três anos. 

A luta foi grande. Inesperadamente, nesta época, começou a desmoronar o regime comunista do Leste Europeu. Ainda antes da proclamação da Independência da Ucrânia, em julho de 1990, eu voltei à terra dos meus avós, que emigraram para o Brasil em 1894 da aldeia de Chornochovici localizada na proximidade de Lviv. Tive ainda a possibilidade de testemunhar a saída da Igreja  Greco-Católica Ucraniana da clandestinidade e ouvir a emocionante canção religiosa do cantor Petrenenkoa: “Deus proteja a Ucrânia”, que, pela primeira vez ecoou na televisão ucraniana, após 50 anos da dominação do comunismo ateu.

“Para mim estes momentos históricos foram emocionantes e redigi numerosos artigos sobre a queda do Comunismo e o Ressurgimento da Igreja Católica Ucrânia da clandestinidade. Até o momento visitei a Ucrânia 12 vezes. A primeira vez foi em 1975, ainda durante o Regime Comunista. Mas a mais importante destas visitas foi a do ano 2001 durante a visita do papa, hoje Beato João Paulo II. Durante 5 dias, como jornalista acreditado do Vaticano eu tive acesso ao Santo Padre. Por duas vezes nestes dias  conversei com ele, viajei no ônibus do Santo Padre e fui um dos três padres basilianos a receber o Santo Padre, que inesperadamente decidiu visitar o recém-construído mosteiro dos Padres Basilianos em Kiev,  apenas três dias antes tinha sido inaugurado. Por  ocasião da visita do Santo Padre à Ucrânia, eu consegui com a cooperação dos colegas  jornalistas da Ucrânia editar um número especial da Revista “Svitlo” sobre este histórico evento. A edição especial foi considerada a melhor cobertura da viagem do Papa  à Ucrânia”

Em março último eu iniciei os meus 24 anos na redação da Revista “Svitlo” (luz) aqui em Toronto. Durante 10 anos a Revista foi editada também na Ucrânia. A revista “Svitlo” foi fundada pelos Padres Basilianos em 1938, em Mundare, Alberta. No ano de 1950, ela foi transferida de Mundare para Toronto.

Alguns meses depois do acidente, em junho de 2005, eu decidi colocar no local do acidente uma estátua de Nossa senhora, em agradecimento pela preservação do meu olho perfurado e pela inexplicável melhora da minha visão.”(...)

“Você, meu amigo Jorge Baleeiro de Lacerda, num dos seus artigos, escreveu a meu respeito: “Um brasileiro, com os pés no Canadá e com o coração na Ucrânia”. Realmente, minha vida até o momento transcorreu vivendo a realidade destes três países, todos eles igualmente caros para mim.

Quanto ao meu futuro, Baleeiro, se retornarei algum dia para o Brasil ou não, só posso dizer já que isto pertence somente a Deus. Durante a minha primeira visita ao Brasil em 1989, depois de quase um ano no Canadá  para participar na inauguração do Monumento a Taras Schevchenko, erigido em Prudentópolis, eu visitei rapidamente, pela última vez a minha mãe. Suas últimas palavras dirigidas a mim foram: “Filho, nós esperamos tua chegada com tanta alegria e agora você está indo novamente. (...)

Dois meses depois, no dia 3 de fevereiro de 1990,  Deus levou a mãe para o céu. No dia 24 de maio de 2006, Deus levou também para o céu na idade de 92 anos o meu pai.’’

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