O peixe boi do museu Emílio Goeldi e do Lago do Boto

Atualizado em: 28/01/2012 - 08:40

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Foto de Jorge Baleeiro de Lacerda/Arquivo pessoal
Imenso peixe-boi da coleção de Nunes Pereira. Fotografado no Alto Solimões, anos 40.

Vivi em Belém do Pará, minha cidade natal, do meu nascimento aos 5 anos, depois dos 12 aos 14 anos. Lá voltei várias vezes, mas nunca mais para morar, fixar residência. Quando volto em visita, sempre vou ao Museu Emílio Goeldi, um patrimônio do povo do Pará, e revejo o peixe-boi do museu.

Não sei se é o mesmo peixe-boi da minha infância, que vi pela primeira vez quando tinha três anos. Toda criança de Belém visitava o parque  zoobotânico do Museu Emílio Goeldi, na Avenida Independência, canto com Alcindo Cocela e Nove de Janeiro. Via-se nele, dentre tantos animais da Amazônia, o peixe-boi. Mostrava a fuça, comia o capim que lhe lançavam e sumia. Dele sabia o que contava minha mãe, criada na propriedade dos Baleeiro no Rio Mineroá, onde tinham seringal e castanhal. No Lago do Boto, sob os matupás-verdes e os matupás-de-terra se escondiam e faziam as suas camas. Com que familiaridade falava  minha mãe  do peixe-boi. De sua carne, do óleo. Sabia pormenores da pesca ou caça ao peixe-boi porque viu  no fundo da casa-grande dos Baleeiro, num quartinho, os apetrechos de pesca e lá estavam as hastes de pau d’arco ou pracaauba, em que se colocava o arpão, os torniquetes para se tapar as ventas do peixe-boi que morria por asfixia, mesmo assim ainda corria de um lado para o outro, levando a canoa, até a entrega final.

Em tantas viagens pela Amazônia, confesso-lhes que só vi peixe-boi no rio ou igarapé, no Rio Javari, no Solimões perto de São Paulo de Oliveira e no INPA. Nunca acompanhei uma pesca de peixe-boi até porque de há muito está proibida.

Em 1973, no Rio de Janeiro, conheci e dele fui amigo, Nunes Pereira, que me fez logo ler sua monumental obra “Moronguetá, um Decameron Indígena”. Dele ganhei um ensaio sobre “O Peixe-Boi da Amazônia”, de que muito me vali e me remeteu a outras leituras, inclusive ao clássico “A Pesca na Amazônia”.

 No seringal dos Baleeiro, no Lago do Boto, Rio Mineroá, quase na foz do Rio Juruá, época de cavalgação (de acasalamento) era uma festa. Bandos de 20, 30 saltavam, corriam em corcovos, em rabanadas na luta pela fêmea. Fazem amor nas profundezas dos lagos. O macho, como ensina Nunes Pereira, precisa de muito esforço, tenacidade para conseguir a conjunção carnal com a fêmea. Flagela com a sua cauda, em batidas rijas, o sexo da fêmea para que relaxe bem e possa receber o parceiro priápico. Nunes Pereira fala de morte de fêmeas por exaustão na cópula.

Já passei no Uará (hoje apenas uma referência), quase na foz do Rio Juruá, mas não cheguei a visitar o local dos Baleeiro. Antes de partir para o nada... espero um dia alugar uma rabeta em Tefé e andar pelo Mineroá e pelo Uarabidi, seguindo a Carta Mostrando a “Linha do Tratado de Limites entre o Brasil e a Colômbia – assinado em Bogotá em 24 de abril de 1907”.

Nessa carta consta o nome Baleeiro, pouco abaixo de Tefé. Há que se navegar umas 50 milhas até chegar à Boca do Juruá. O Rio Mineroá, pelo que contava minha mãe, deságua quase na foz do Juruá. Busquei vê-lo do alto quando fui de Cruzeiro do Sul a Manaus, mas me foi impossível. Guardo o citado mapa como verdadeira relíquia, em que está impresso o nome de minha família, que chegou à Amazônia nos idos de 1880, lá se mesclando, por certo, com índios, regatões de origem judaica (há na Amazônia 300 mil pessoas de origem judaica, como bem estudou Samuel Benchimol em seu livro “Heretz Amazônia- os Judeus na Amazônia”. Centenas de regatões de origem judaica-marroquina se amancebaram ou apenas engravidaram caboclas em toda a Amazônia, mormente na região da borracha, durante o ciclo áureo entre 1890 e 1920. Tio Januca, que tinha cara de caboclo, dizia-se, em parte, de origem judaica...

Noutro artigo, por falta de espaço agora, lhes falarei da  mixira, prato à base de peixe-boi, estórias contadas por minha mãe. Vejam que o peixe-boi é uma figura muito presente na vida de meus antepassados do Alto Solimões. Hoje, esse sirênio, de aspecto horroroso, está em extinção. Nunca comi carne de peixe-boi e agora mesmo é que jamais comerei...

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