“Memórias de um Baleeiro”... O pum da baleia

Atualizado em: 30/06/2012 - 09:27

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Baleia encalhada na costa catarinense.

Em setembro de 2004, andei por Imbituba (SC) no afã de entrevistar o ex-baleeiro Cedolino Alexandre Mattos, 83 anos. Conversamos por mais de duas horas, sob os olhares de Irene Santana, sua loiríssima esposa de 40 anos. O mais curioso de nossa longa conversa, em sua casa à Rua Sete de Setembro s/nº, perto da Praia do Porto, recaiu sobre o pum da baleia e seu insuportável mau odor. Cedolino estava doente (morreria meses depois). Já tratei dessa visita em outro artigo, há alguns anos. Mas agora achei mais uma referência ao tal fétido pum da baleia, odiado por todos os baleeiros, e volto ao tema.

Cedolino contou-me com graça que deixara a caça à baleia por não suportar mais o odor nauseabundo do pum da baleia, que vem à superfície em forma de uma bola, uma imensa bolha. Quando espoca, saia de perto. Nunca ouvira falar disso. Até tubarão foge em busca de melhor ar... Deve atingir-lhe o olfato. Cheiro reunido de dez carcaças de carniça juntas. Não há estômago que aguente. Cedolino achou que era tempo, depois de mais de 20 anos na pesca (ou caça)

da baleia, de deixar esse ofício.

Algum tempo depois, em Piratini, Rio Grande do Sul, um amigo me deu uma cópia de “Memórias de um Baleeiro – Caça à baleia nos Açores - 1930-1045”, de Nunes Álvares de Mendonça, em que o autor fala do pum da baleia e coloca no ápice dos odores mais insuportáveis que já sentiu o tal gás vindo do bucho da baleia. Passei a entender a razão de Cedolino haver deixado a caça à baleia na velha Imbituba (SC).

Conta o autor de “Memórias de um Baleeiro”:

“Como é habitual, uma baleia, quando sente o bote, atira-se para fora. Esta não fugiu à regra, só que teve um comportamento pouco vulgar, devido ao susto, qual criança amedrontada, aquele animal monstruoso produziu uma descarga intestinal de enorme violência, não só pela quantidade de fezes expelidas, mas principalmente pelos estrépitos produzidos, dum mau cheiro inigualável e insuportável...

Quando um bote vai de remos para cima de uma baleia, é muito difícil, senão impossível ao remador ver o que se está a passar para vante do seu remo. Esta razão por que não presenciei toda a cena com o pormenor devido, o que hoje bastante lamento. Consegui ver ainda a baleia com cerca de três metros de água por cima, quando passava ao meu lado, deitada, talvez para melhor nos olhar, e com a barriga voltada para nós. De novo se forma, à saída do ânus, uma bolsa de ar que logo começa a procurar a superfície, indo rapidamente aumentando em forma de bexiga, sempre ligada ao ânus por um umbigo. Esta bolsa de ar atingiu, num rápido momento, mais de um metro de diâmetro. Então desprende-se da baleia, chega à superfície e faz de novo o tremendo estrépito, ao mesmo tempo que nos chega ao nariz, uma vez mais, mas agora pior, o mais horrível odor que, julgo, até hoje meu olfacto cheirou!...” (Memórias de um Baleeiro - Caça à Baleia nos Açores 1930-1945-Edições Salamandra-Nunes Álvares de Mendonça).

O assunto me interessa como descendente remoto de pescadores de baleia, que foram para os Açores portugueses por volta de l550, depois vieram pra o Brasil, em l726, contratados para um armação (pesca da baleia) na costa da Bahia, fixando-se em Cachoeira, à beira do Rio Paraguaçu, como no-lo informa um formal de partilha, que guardava o ministro Aliomar Baleeiro, como me disse em carta. Aliomar, que chegou a presidente do Supremo Tribunal Federal, não era meu parente, embora os Baleeiro da Bahia nos chamem de primos. Sou do ramo que foi para o Amazonas em l890. Os Baleeiro, antes de se dedicarem à pesca da baleia nos Açores, assinavam Beliago, como está no Armorial Português de Baamcamp Freyre. Houve no Porto, século XVI, um bispo safado, mau caráter, segundo conta a história, dom Belchior Beliago, autor de livros, dono de várias casas nas barrancas do Minho. Nele deve ter se inspirado o Tio Januca, meu antimodelo, para sua vida multifacetada, de quem bem sabia acender uma vela pro santo e outra pro diabo...

Soube do Cedolino pelo seu Fávero, então comerciante em Francisco Beltrão, hoje vivendo em Garoupaba. Não me animo a ir, de novo, a Imbituba, por onde sempre andam e encalham baleias, e acabar agredido pelo cheiro cloacal do pum de alguma baleia em viagem por aquela costa barriga-verde.

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