Martinho da Vila, o polígamo fiel

Atualizado em: 21/07/2012 - 09:22

comentários


Martinho, nos idos de 80, com as irmãs e a mãe: Martinho, Deuzina, Nélia, Dona Teresa de Jesus (mãe), Elza e Maria José (In “Memórias Póstumas de Teresa de Jesus”, de Martinho da Vila.

No  período que vivi na  Fazenda Rosa dos Ventos,então com 800  alqueires fluminenses , a 3 km de Monerá, Duas Barras, RJ,  desconhecia  que Martinho da Vila  nascera na antiga Fazenda do Cedro Grande, a uns 6 km do trevinho da RJ-116, entre Bom Jardim e Monerá, onde, numa bela noite de luar fiquei  com  Ester num fusquinha vermelho, ano 67(ela nove anos mais rica de idade) Entregamo-nos a Eros e fizemos juras de amor. Lá se vão 45 anos.  Martinho  gravou seu primeiro LP em 69   e nunca mais parou. Andou pelo mundo, ganhou a África de língua portuguesa, onde fez-se  ídolo, escreveu livros, um deles: “Memórias Póstumas de Teresa de Jesus”, a pobre  e  laboriosa vida de sua mãe que faleceu em 2001 com 94 anos. E aqui quero me deter.

Martinho nasceu em fevereiro de 1938. Em 42, deixou a roça, no interior de  Duas Barras numa Maria Fumaça   da E. F. Leopoldina. Conta ele que pegou o trem em Cordeiro. Poderia tê-lo feito em Monerá, mais perto. Josué Ferreira e Teresa de Jesus queriam futuro melhor para os filhos Elza, Deisinha, Martinho, Nélia e  Maria José. O casal já perdera 6 dos 11 filhos, no momento do parto. Crioulo esperto de boas leituras, conhecido no distrito de Monerá e na cidade de Duas Barras pela sua sabedoria, cantador de Folia de Reis, compositor de calangos, não desejava para Martinho o futuro merencório destinado aos negrinhos pobres nascidos em fazenda: consertador de cerca arame farpado, castrador de burro ou de boi, carreiro, cuidador de terreiro de café, matador de formiga, retireiro, abridor de porteira  ou candeeiro  de boi  nas fazendas de Duas Barras. Resolveu Josué ganhar a vida no Rio de Janeiro como operário numa fundição. Enfiou-se no subúrbio do Rio  com os cinco filhos, todos de menor. A mais velha era Elza (14 anos). Viveu algum tempo no Morro dos Pretos Forros, na Boca do Mato. Ali escasseava o pão, faltava luz elétrica, mas  sobrava ânimo para o trabalho. Com sete anos, Martinho já catava estrume seco no pasto de Dona Maria das Vacas, fazia trabalhos domésticos e puxava compras com seu carrinho de rolimã.  Não havia, ainda escapado da miséria nem garantido  futuro algum.

 Soldado, cabo e sargento, em 1968 deixou a Força, depois de l3 anos de caserna e foi ganhar a vida com o samba, porque percebeu que lhe sobrava talento e  haveria de ganhar  muito dinheiro  como  sambista. “Polígamo fiel”, hoje com oito filhos de quatro mulheres diferentes, Martinho  é  patrimônio vivo da nação .                 

Não fosse seu talento aliado à educação, o ingresso no Exército, onde pode ganhar um pouco melhor, seria um anônimo suburbano Daí  decorre o valor que Matinho dá à educação de qualidade.

Sérgio Cabral conta que  o começo  de Martinho foi duro, cheio de crítica   até   que se reconhecesse nele muita competência e a capacidade de trazer  para suas letras, como dizem estudiosos de sua obra como João B.M.Vargens e André Monforte, desde os jongos aos maculelês, da capoeira ao  partido-alto, das folias-de-reis de sua Duas Barras ao frevo, dos pontos de macumba  ao que mais cheiro de povo  houver, mormente o bodum  afro dos baticuns     da velha Tapera, sua antiga Duas Barras.

Em seu belo e denso livro sobre Teresa de Jesus,  sua mãe, em que conta a saga da família, diz tudo nas entrelinhas, mas não se mete a  fazer nenhuma análise de sua vitória, da razões de ter saído da pobreza.  Sua passagem pela Escola Pública Rio Grande do Sul, no subúrbio, foi decisiva.  Sem formação teria ficado por  Lins de Vasconcelos, Quintino  ou Pilares  em infindáveis “Pagodes” e “Fundos de quintal”, que faziam bem à alma, mas quase nada rendiam. A Educação aliada ao seu talento, a simbiose dos dois, possibilitou  a mudança de condição, tão bem narrada em “Memórias Póstumas de Teresa de Jesus”, lançado em 2003, pela Editora Ciência Moderna, livro que num país sério, seria incluído pelo Ministério da Educação na lista das leituras obrigatórias do curso médio como modelo de superação, pela Educação, da pobreza, da vida sem perspectiva. Não conheço pessoalmente Martinho da Vila, mas há dois fatos que devo citar: em 1993, recebi do editor Leo Christiano “Kizombas, Andanças e Festanças”, de Martinho da Vila com dedicatória do autor: “Baleeiro, felicidades para os privilegiados com a sua leitura em Francisco Beltrão, Martinho da Vila – setembro de 93.” Em 1998, Elifas Andreato, um gênio da ilustração gráfica, permitiu-me usar  desenho seu, a que somei um imenso mapa do Brasil, para capa do meu livro “Os Dez Brasis”.  Esse desenho foi capa do  LP Aquarela  do Brasil, de Martinho da Vila.

Há poucos livros no Brasil da lavra dos que viveram, de alguma maneira, a escravidão, o preconceito, a falta de acesso à educação, o racismo e  a discriminação nas suas mais diversas fases e formas.  Martinho é um escritor-sambista e um sambista-escritor  que fala da negritude . AXÉ!  SARAVÁ!

Compartilhar esta notícia

Publicidade