Foragidos de Noronha mortos no mar

Atualizado em: 16/06/2012 - 09:44

comentários


Jorge Baleeiro em Fernando de Noronha, em junho  de  2000, ao lado do casal Maria Betânia de Souza e   Virgílio Ferreira Gomes, dono da “Pousada da Bel”.

 

Em 2000, quando estive pela terceira vez em Natal-RN, pesquisei, sobremodo, a obra de Câmara Cascudo. Em “Jangada”, lembro-me bem que Cascudo tratou das fugas de presos de Fernando de Noronha. Não tive tempo para, na Biblioteca Pública Câmara Cascudo, em Natal, buscar, em vetustas coleções de jornais e revistas potiguares, notícias de náufragos e de jangadas com cadáveres, já em decomposição, chegadas à costa de Macau, de Mossoró, ou ao litoral do Ceará. A preciosa Coleção Mossoroense com mais de mil títulos não tem um livro sequer sobre o tema. Ou tem? Pedirei ao notável escritor mossoroense Almir Nogueira da Costa, autor de “Mossoró Nossa Terra”, a quem devo o envio de seus saborosos livros, que me fale sobre os náufragos foragidos de Fernando de Noronha, já que tem acesso fácil à coleção de velhos jornais de Mossoró, como diretor da prestimosa Biblioteca Pública Municipal Ney Pontes Duarte. Que o talentoso fotógrafo e promotor do turismo, em Mossoró, José Rodrigues da Costa, que já me enviou uns 50 livros da Coleção Mossoroense — hoje com mais de l.600 títulos publicados —, ajude-me, também, nesta tarefa.

Esses foragidos morriam durante a viagem e flutuavam com a jangada durante dias até que aparecessem na costa de Mossoró ou de Macau. Quando estive em Fernando de Noronha, em junho de 2000, não me ocorreu pesquisar sobre o tema. Estava interessado mesmo em andar pelo arquipélago e pesquisar sobre o tempo em que ali havia um presídio.

Os fugitivos que conseguiam chegar à costa, depois de uma semana de mar, de tubarão pela proa e pela popa, lembra Cascudo, estavam famintos, esgotados e exaustos.

Tenho me empenhado junto à amiga Daliana Cascudo, neta de Cascudo, competente e dinâmica diretora do Memorial Câmara Cascudo, em Natal (RN), no sentido de que me ache jornais de 1910-1935, com notícias desses casos de presidiários foragidos de Noronha que chegaram salvos dessa aventura talássica. Quem sabe algum deles esteja até vivo para contar sua história.

 José Sarney, autor do belo “O Dono do mar”, está aí para transformar essa estória em romance. Cascudo, que sempre relata o que leu, ouviu ou testemunhou, diz textualmente: “Vez por outra uma jangada com dois ou três presos arribava numa praia ao norte de Natal, alturas de Macau ou Mossoró ou no litoral do Ceará (...). Estavam livres em sua maioria absoluta. A percentagem de êxito era animadora. Metiam-se pelo sertão, dizendo-se náufragos, e ficavam tranquilos. Muitos casavam e eram grandes trabalhadores, morigerados e esquecidos das diabruras anteriores. O rádio acabou praticamente, nos últimos anos do presídio, com a facilidade da escapadura. Todos os povoados praieiros ficavam avisados e as patrulhas corriam beira-mar catando os recém-chegados sem justificativa impecável”.

Cascudo, que era repetidor de causos, sempre fidedigno em seu relato, deve ter conhecido vários deles. Não cita nomes, nem dá bibliografia, mas espero, ainda, encontrar registro em jornais e revistas do Rio Grande do Norte e do Ceará desses foragidos, Pappilons caboclos de Fernando de Noronha, que o mar não engoliu nem o tubarão comeu.

Cascudo dizia com a clareza de quem sabia de vários casos de fuga que: “O pescador, encontrando a jangada fugitiva no alto mar, nunca lhe negou comida, água e rumo. Nunca houve jangadeiro para delatar o paradeiro destes egressos de Fernando de Noronha. Bastava sua desgraça. Mas também não os acolhia. Fugir de Fernando de Noronha não era recomendação. Lá estavam assassinos e ladrões”. Imagino que essa época esteja situada entre 1900 e 1930. Não me parece que o grande Câmara Cascudo tenha falado diretamente com algum desses fugitivos (ele diria o nome e reproduziria a conversa).

Soube, suponho, (que me confirme Daliana Cascudo) dessas façanhas pelos jornais e relatos de conhecidos canguleiros. Alguém lhe disse que os jangadeiros chamavam os evadidos de Noronha de “desgraçados”.

Com paciência, nas coleções de jornais natalenses dos anos 1900/1930 haveremos de encontrar relatos desses fugitivos. Quem sabe a revista História, da Biblioteca Nacional, não nos ajudaria com alguma pesquisa sobre esse tema. Seu conselho editorial tem gente, cito apenas alguns, do gabarito de Alberto Da Costa e Silva — o maior africanista do Brasil, a quem devo livros enviados dos mais diversos cantos do mundo, onde serviu como embaixador. Dele mereci denso texto de apresentação para meu livro “Os Dez Brasis” —; Marcos Sá Correa, filho do amigo Villas-Boas Correa, que se recupera de gravíssima queda em sua casa; José Murilo de Carvalho e Ronaldo Vainfas. Oxalá a revista História (da Biblioteca Nacional) delegue para algum estudioso de Natal essa incumbência. Fica a sugestão! Quanta História fantástica deve estar escondida no “Mar sem fim” entre o Rio Grande do Norte e Fernando de Noronha.

Compartilhar esta notícia

Publicidade

Comentários