"Mataram o Piolho!

Atualizado em: 18/05/2013 - 08:31

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Arquivo Baleeiro
Fundos da casa-grande da Fazenda Rosa dos Ventos, em Monerá, distrito de Duas Barras, Estado do Rio de Janeiro (foto de Jorge Baleeiro de Lacerda, em 1966). Logo abaixo, um peão coureando um cavalo, desenho do argentino Tito Saubidet.

Num belo fim de semana, lá por 1966, como nunca acontecera, havia abundância de carne. Nunca se vira tanto bife e nada de fígado, mocotó, buchada, rabada nem de língua. A cabeça do boi abatido, que sempre era de seu Cláudio (o carreiro da fazenda), desta vez sumira. Para aumentar a desconfiança de que a  hipofagia, tão comum na China, chegara à Fazenda Rosa dos Ventos, o Piolho, um matungo, já silhão, lobuno, talvez mais para cinzento, sumira do terreiro da fazenda e dos demais pastos ao redor. O primeiro a desconfiar foi seu Antônio, cozinheiro antigo. Haviam carneado o tal “boi” lá pros lados do curral, à noite. Daí para a propagação da notícia de que haviam matado o “Piolho” para comer foram ...

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Os navios da minha infância - 3 O “Almirante Alexadrino”

Atualizado em: 06/05/2013 - 10:47

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Navio “Almirante Alexandrino” – navegou de 1900 a 1962.
Tudo ali era pior. Dormitório comum para mulheres e crianças e outro só para os homens, vizinhando com a carga do navio. A comida servida em panelões na entrada do dormitório. Lembro-me dos gritos do taifeiro Elefante: “Olha a gororoba! Olha a gororoba!”. O café da manhã eram dois pães e café preto. Não havia leite. 
Essa experiência serviu-me muitíssimo para minhas viagens posteriores. Nunca me iludi com luxo, muito menos com comida. Não tenho, digo sempre, paladar. A melhor comida do mundo e feijão-com-arroz, para mim, faz o mesmo efeito. Perdi o paladar, quem sabe, nessa viagem de muita pobreza. No porto de Fortaleza embarcaram uns 200 flagelados-arigós para o Sul, para as plantações de café do Norte do Paraná.
Creio que algum retirante embarcado em Fortaleza haja feito, mercê do trabalho, fortuna no Norte do Paraná.
A seca continua a fazer miseráveis. Agora mesmo, o Nordeste passa por terrível estiagem!
Tinha ...

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Navios da minha Infância - 2 O ‘’Raul Soares’’

Atualizado em: 27/04/2013 - 08:41

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Divulgação
Navio Raul Soares, em 1930, atracado no porto de Angra dos Reis, Rio de Janeiro.

Como sempre, repasso a bibliografia consultada, fontes em que busquei dados complementares. Há sempre quem queira saber mais do que o tratado numa simples crônica. Levei anos reunindo livros: “Álbum Ilustrado do Loydd Brasileiro” – 1929; “O porto de Santos e sua história”, Carlos Alberto Deviate; “Navio e Portos do Brasil nos cartões-postais e álbuns de lembranças”, de João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo – 2006 (obra fartamente ilustrada). Nele pude encontrar o nome de todos os “Itas” da primeira fase do Loydd, além dos 12 “Itas” dos anos 70 batizados com nome dos antigos “Itas’ dos anos 20/40; “Bandeiras nos oceanos – a história de centenária amadora – navios de longo curso do Loydd Brasileiro”, vol I – de José Carlos Rossini, o maior conhecedor de nossa história marítima, mormente do Loydd e da Navegação Costeira. Sem as obras de Rossini, a memória nacional marítima estaria capenga ...

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Navios da minha infância - I O ‘’Raul Soares’’

Atualizado em: 20/04/2013 - 09:05

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Navio “Raul Soares”, em 1930, atracado no porto de Angra do Reis.

Camões já dizia que queria ver mais águas que as do Tejo e do Douro. Nasci há poucos metros da beira da Baía de Guajará, na cidade Velha (Belém). Nunca me interessei por praia porque não tenho paciência para ficar lagarteando na praia. Visito-os sempre, mas não adentro ao mar, sempre traiçoeiro. Aprendi a nadar em açude e rio. Perdi um amigo nadando no rio Paraíba abaixo da Ilha dos Pombos, em Além Paraíba. Nunca, uma vez sequer, levei minha família à praia. Todas as nossas economias foram voltadas para bem educar os filhos. 

Hoje, qualquer mané faz “cruzeiro”. Virou moda popular. As companhias ganham muito dinheiro, os embarcadiços têm precária situação trabalhista e os passageiros comem à tripa forra e, pelo sabido, idolatram Eros, Baco, Afrodite e põe em prática os sábios ensinamentos eróticos do Kama Sutra a bordo. Felizes eles. Sobra pouco para ...

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Fotos preciosas do Brasil indígena Memória do SPI – 1910-1967

Atualizado em: 13/04/2013 - 08:44

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Foto do Tenente L. Thomaz Reis, 1913. 
Índia Pareci (MT).

 Os Baleeiro chegaram ao Alto Solimões, região de Fonte Boa e Tefé, por volta de 1885. Ganharam dinheiro com a borracha, tiveram seringais, lagos de pesca, barcos e se mesclaram com índios. Tio Januca negava seu lado índio, estampado em sua cara de caboclo. Tenho meu lado índio e dele me orgulho. Por que me envergonhar se todos, mais cedo ou mais tarde, viemos nus da caverna, da maloca, evoluídos do macaco, sujos e mal lavados, cheios de superstições primitivas, imbecis e ágrafos? Não sei em que grau carrego nas veias sangue camaçari, tikuna, marubo ou sei lá o que. Os ancestrais remotos da Rainha da Inglaterra, do Rei de Espanha dom ‘Por que no te callas, Chávez’, do Papa Pio XII, do Pelé e do Lula partiram da mesma caverna africana com catinga de urina, há dois milhões de anos! A genitália de todos fedia a 200 metros de distância.

Faz tempo que estudo ...

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No Coqueiro, Piauí, um belo cemitério à beira mar

Atualizado em: 06/04/2013 - 09:34

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Foto: Jorge Baleeiro de Lacerda-janeiro de 1984
Leônidas Araújo de Souza, pescador, em l984, no cemitério de náufragos da comunidade Praia do Coqueiro, costa do Piauí.

“Vou lhe mostrar, mestre Jorge, uma coisa linda!”, disse-me o experiente pescador Leônidas Araújo de Souza, então com 58 anos. O que seria? Vestiu uma camisa branca e me convidou para acompanhá-lo. Andamos uns mil metros no rumo do Ceará, onde terminava a comunidade praieira do Coqueiro, município de Luis Correa, litoral do Piauí. Já havia estado lá em 77. Quando lá voltei pela segunda vez, em janeiro de 1984, aquele mundo primitivo e simples que encontrara havia sofrido transformações profundas. Leônidas continuava, firme e forte, cheio de ânimo para ver os oito filhos crescerem com saúde numa comunidade tão pobre, já escassa de peixe pela ação dos barcos e navios pesqueiros de alto bordo e grande sofisticação técnica.

Leônidas nascido ali perto, no Sobradinho, em 1926, casado pela quarta vez, orgulhava-se ...

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O latinório do doutor Bandeira, meu mestre

Atualizado em: 30/03/2013 - 09:59

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Arquivo Baleeiro de Lacerda
Raymund Bandeira Vaughan (1890-1980), aos 80 anos, erudito, engenheiro-eletricista, silvicultor, apicultor, ex-senador, ex-deputado federal, jornalista, bibliófilo, poliglota, escritor, cruzadista, columbófilo e historiador .

Dentre as muitas facetas de meu saudoso amigo e mestre Raymundo Bandeira Vaughan (1890-1980), destacava-se seu interesse pela língua latina, que se concretizava nas várias inscrições espalhadas pela Granja José Constâncio Monnerat, em Monerá (Duas Barras-RJ). Logo no portão de entrada, versos de Horatius Flacus: “Se Fractus ilabatur orbis, impavidum faerit ruinae” (Por mais que tudo venha abaixo, permanecerei forte sobre as ruínas).

Antigo aluno jesuíta do Colégio Anchieta, de Nova Friburgo, Bandeira tivera bons professores de latim e de português. Como passou alguns anos na Alemanha, quando voltou escrevia de maneira arrevesada.

Viu-se obrigado a tomar aulas de português com a professora Quaresma de Moura, que o ensinou a bem colocar os pronomes, a escrever com sabor clássico, mercê das muitas leituras de Vieira, Frei Luís de Souza, Padre Manuel Bernardes e Castilhos que ...

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O humorista Lúcio Mauro e o Exército do Pará

Atualizado em: 23/03/2013 - 09:39

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Seu Aldemar Vigário e o Professor Raimundo.

Quem veio do Norte, antes dos anos 70, quando os gaúchos começaram a invadir a Amazônia, viveu os tempos românticos dos “Itas”, navios do Loydd Brasileiro que faziam o transporte de passageiros e toda a navegação de cabotagem, indo e vindo de Manaus a Porto Alegre. Dos meus 5 aos 11 anos vivi isso. Todos os anos viajava a Belém para o Círio de Nazaré, o carnaval devoto de minha terra, a maior manifestação de ecumenismo do Brasil. Não tinha idade para entender o Círio. A viagem anual a Belém me tirava da escola e me causava um mal enorme como aluno. Ficava três meses por ano fora da sala de aula. Passei a abominar a escola. Nunca gostei de escola, sim de ler, de estudar.

Vinguei-me desse delírio religioso de minha infância não tendo fé nem frequentando ato litúrgico de nenhuma espécie, o que é bem diferente de cultivar a ...

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