O obstinado Rubinho
Atualizado em: 08/03/2003 - 00:00
Começa hoje a Fórmula 1 e, mais uma vez, o ídolo Rubinho anda dizendo que tem chance de disputar o título.
Obstinado, Rubinho encarna a atual disposição do povo brasileiro: uma confiança infinita de que as coisas vão melhorar. Uma confiança, aliás, que teve em Lula seu símbolo máximo no ano passado, quando depois de várias derrotas e contradições, soube, obstinadamente, se apresentar outra vez para a opinião pública numa eleição.
Pois é em Lula, e não na Ferrari, que Rubinho deve se espelhar. Na vontade de Lula. O ferrarista está na luta desde 1993, quase um recorde de longevidade na categoria. Como Lula, candidato pela primeira vez a presidente em 89.
Falando assim, 93, 89, parece um tempo distante, e é mesmo. Tanto a Fórmula 1 como o Brasil (e o mundo) mudaram bastante, como é natural.
Estávamos naquela época vivendo nas corridas o auge da eletrônica (que seria banida em 94, e retornaria com o controle de tração em 2001) e o país respirava ares de democracia plena. Ou quase plena, até porque democracia é um processo em construção.
Mas 89 foi um ano democrático. O PT pôde parafrasear programas famosos da Globo, encaixando-os no seu horário gratuito Globo de Ouro virara na versão petista Povo de Ouro. E dá-lhe proposta. Depois isto foi proibido. A paráfrase, não a proposta.
Imagens de comícios com milhares de pessoas também estavam presentes nas campanhas televisivas, prática que seria restringida nas eleições seguintes.
E Lula estava lá, firme. Rubinho se apresentava no seu começo não como sucessor de Senna, ou pelo menos não tinha essa obrigação. Estava, num carro frágil, andando rápido e já chamava atenção das outras equipes e da mídia especializada. Foi o azar da morte de Senna que chamou os holofotes a si, atrapalhando sua carreira, porque a cobrança de resultados num país carente de ídolos, como repete a fácil sociologia... foi imediata. E ele não tinha condições objetivas para vencer. Não tinha carro.
Como Lula, que em 94 não tinha uma aliança ampla em torno de si. Tentou em 98 ampliar-se pela esquerda (com Brizola), não deu. Em 2002 foi para a direita (PL), e o caminho mostrou-se correto para vencer a eleição.
Rubinho também optou por um caminho: estar numa grande equipe, mas na condição de segundo piloto, vale a pena?
A história dirá se sim ou se não. Ele está como Lula em meados de 2002: poderia vencer, mas poderia perder.
Rubinho poderá ser campeão um dia, mas poderá também nunca ser.
A história, diz-se , é normalmente contada pelos vencedores. Se a aliança lulista do ano passado fosse derrotada, se diria então que o caminho correto era manter as origens e não se aliar com os históricos adversários.
Se Rubinho for um eterno coadjuvante, será dito que o melhor seria ter esperado para ser primeiro piloto de outra grande equipe para então ser campeão.
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Essa é no site fichacorrida, do jornalista gaúcho Gilmar Crestani, pegando no pé de Lula:
Certo está o ex-primeiro-ministro português, Mario Soares, que se declarou tranqüilo diante do questionamento a respeito do que pensava ao ver os governos português, espanhol, francês e italiano serem comandos pela direita:
O povo os escolheu para serem governos de direita, e o são! O problema está com aqueles que o povo elegeu para serem de esquerda mas governam como a direita.

