Humano, Jesus não faz milagres, mas mantém mistério
Atualizado em: 30/12/2002 - 00:00
Logo depois do segundo turno resolvi abandonar as leituras diárias de jornal e, para desopilar, quis ler um livro que há tempos estava na minha biblioteca, O evangelho segundo Jesus Cristo, do premiado escritor português José Saramago. Uma leitura leve, descontraída, pensei. E digo, trata-se de uma difícil mas deliciosa leitura. Difícil porque os parágrafos são deste tamanho, e os diálogos aparecem de surpresa, com uma pontuação meio que peculiar do autor, sem aspas e sem travessão, e o início, que seria a parte mais atrativa para o leitor, é maçante. Saramago romanceia a vida de Jesus, e coloca elementos nesta trajetória humana do fundador da igreja católica que mais servem para provocação do que reflexão. Mas há também reflexão; há uma ironia subterrânea quando se fala dos milagres, do sexo, dos conflitos psicológicos que assolaram Jesus e suas conversas com Deus e o Diabo. Me interessei tanto pelo personagem, ou por querer cotejar o romance com a história verdadeira, se é que existe, que comprei Jesus, esse grande desconhecido, do jornalista espanhol Juan Arias. Foi uma leitura emendada na outra, e esta, garanto, 100% deliciosa, porque o melhor texto de se ler no mundo é texto de jornalista. Disto, não tenho dúvida. E Arias nos avisa, de cara, que seu livro, que parece uma grande reportagem, na medida do possível, vai nos apresentar mais interrogações do que propriamente conclusões. Porque a vida de Jesus é cheia de mistérios, e os estudos que se fazem daquele tempo se dão em cima de escritos comparativos, tanto dos evangelhos autorizados pela Igreja quanto os não autorizados. Enfim, um trabalho e tanto para os exegetas. Esses 27 textos são os únicos reconhecidos pela Igreja Católica como autênticos. O que isto significa? Que existem muitos outros evangelhos (mais de cem) e escritos, atribuídos a outros tantos personagens das primeiras comunidades cristãs, que a Igreja oficial não reconheceu como inspirados, escreve o jornalista. Um mistério a vida de Jesus. Mas não para Saramago que, ficcionista, passeia sereno por assuntos os mais instigantes: a agressividade de Jesus com sua família, o sentimento de culpa de seu ignorante e alienado pai, seu imenso amor (intelectual e sexual) por Maria de Magdala, suas dúvidas sobre os desígnios de Deus (ou os desígnios do que se convencionou entender como o bem em combate ao mal). Malicioso, Saramago nos apresenta anjos, Deus e o Diabo de forma dúbia. Nunca sabemos se são eles mesmos ou se, num exercício próprio da consciência, trata-se de um diálogo consigo mesmo, como quando estamos em dúvida sobre alguma coisa, uma opinião, uma decisão, uma análise, uma declaração de amor. Um fato literário: o famoso tempo que nada se sabe da vida de Jesus, dos 12 aos 30, não é difícil para o escritor português: para Saramago, Jesus virou pastor e conversou com sua consciência. Durante quatro anos ficou isolado do mundo, até encontrar Deus. Ou: Jesus virou pastor sob orientação de outro pastor, que na verdade é o Diabo (ou sua consciência crítica), que na verdade são quatro anos de dúvidas e questionamentos e a busca pela paz interior. Até encontrá-la, ou encontrar Deus. Nos informa Arias: Para muitos especialistas continua sendo no mínimo curioso o silêncio de Jesus acerca desses 18 ou 20 anos de sua primeira juventude, dos quais nada sabemos e nem uma palavra chegou a nós, seja por meio dos evangelhos, seja pelos documentos históricos não-cristãos. E mais: A possibilidade de que Jesus tenha viajado por outros países durante os 20 anos de sua juventude continua sendo uma hipótese sem provas históricas, mas nem por isso absurda. Não é absurda porque o jornalista nos lembra que Jesus era uma pessoa muito culta, e seria impossível absorver tanto conhecimento vivendo apenas na minúscula Nazaré. Arias rechaça, peremptoriamente, que Jesus possa ter sido analfabeto como a maioria da população p

